Os pesquisadores americanos William Masters e Virginia Johnson estavam decididos
a estabelecer os fundamentos do procedimento sexual humano. Mas para isso
seria necessário responder a duas perguntas:
1. Quais as reações físicas que se desenvolvem quando o homem e a mulher respondem
ao estímulo sexual efetivo?
2. Por que o homem e a mulher procedem como o fazem ao responderem ao estímulo
sexual efetivo?
As técnicas para definição e descrição das principais modificações físicas
desenvolvidas durante os ciclos de resposta sexual humana masculina e feminina
foram, inicialmente, as de observação direta e de medição física.
Em 1966, eles publicaram o livro A conduta sexual humana, no qual dividiram
em quatro fases distintas as reações fisiológicas aos estímulos sexuais: fase
de excitação, fase de platô, fase de orgasmo e fase final ou de resolução.
Primeira fase: de excitação
Essa fase desenvolve-se a partir de qualquer fonte de estímulo físico ou psíquico.
Os estímulos que provocam a excitação variam em cada pessoa. Podem ser visuais,
olfativos, táteis, lembranças de outros momentos vividos ou um pensamento.
Se o estímulo for adequado à necessidade individual, a intensidade da resposta
aumenta rapidamente. Se, porventura, o estímulo estiver sujeito a objeções
físicas ou psicológicas, ou se for interrompido, a fase de excitação pode
prolongar-se muito ou interromper-se.
Os estímulos que provocam a excitação chegam a certas regiões dos centros
cerebrais superiores da resposta sexual ocasionando diversas reações corpóreas
neurológicas, musculares, endócrinas e vasodilatadoras. Assim, os órgãos genitais
passam do estado de repouso para o de excitação.
Na mulher, os órgãos genitais estando em estado de repouso, o útero situa-se
dentro da cavidade pélvica, o clitóris escondido no prepúcio, a vagina enxuta.
Os estímulos sexuais fazem com que esses órgãos recebam aumento do fluxo sangüíneo.
O clitóris se ingurgita e torna-se sensível ao toque, as glândulas de Bartholin
- localizadas na vagina - liberam sua secreção e os músculos circunvaginais
começam a transudar (suar) lubrificando a vagina e facilitando a penetração.
A sensação de umidade que chega aos órgãos externos é acompanhada pelo relaxamento
desses músculos que circundam a entrada vaginal.
Ao mesmo tempo, as mamas aumentam 25% de tamanho, ocorre a ereção dos mamilos,
a dilatação das aréolas, os grandes lábios se afastam do orifício vaginal
e os pequenos aumentam de tamanho. A vagina se alarga e se aprofunda e os
tecidos perivaginais ingurgitados de sangue e suados formam a chamada plataforma
orgástica, ou seja: início da fase de platô.
Mas nem sempre a excitação ocorre naturalmente. Se a mulher estiver ansiosa
ou preocupada, o estado de excitação pode ser de uma intensidade muito baixa
ou mesmo não se produzir. Os músculos estando tensos e a vagina seca, a introdução
do pênis é dolorosa e em alguns casos até impossível.
No homem, o pênis é um órgão cilíndrico, cujos tecidos podem enrijecer-se
quando se enchem de sangue. Os corpos cavernosos são duas espécies de cilindro
que se estendem do osso púbico até a glande. Normalmente suas paredes estão
quase secas, pregadas uma à outra. Na fase de excitação o sangue entra nesse
tecido e fica retido lá dentro. Enquanto isso acontece, a ereção se mantém.
Qualquer distração, mudança de posição ou de estímulo, pode fazer variar a
ereção. Quando o sangue flui das veias penianas para o interior do abdômen,
ocorre a flacidez.
Os homens excitam-se principalmente com estímulos visuais e a mulher com estímulos
táteis. Além dessa diferença, a mulher se excita em geral mais lentamente
do que o homem.
Passos progressivos da excitação sexual:
1. A visão da pessoa desejada desencadeia estímulos eróticos.
2. Estímulos olfativos: perfumes, odores característicos.
3. Beijos e palavras carinhosas.
4. A pele da orelha e a audição de palavras carinhosas.
5. Exploração e carícias nas zonas sexuais secundárias (seios, nádegas etc).
6. Sentido tátil. Leva grande quantidade de estímulos ao cérebro.
7. Centros cerebrais superiores e inferiores. Organizam o sentido e o significado
dos estímulos.
8. Órgãos sexuais primários: aparelho genital feminino e masculino (lubrificação
vaginal e ereção).
Segunda fase: platô
Nesta fase a excitação sexual é intensificada e atinge o nível máximo. A pele
do corpo pode ficar avermelhada, o coração bate mais rápido (os batimentos
podem chegar a 120/m), a respiração fica mais intensa e há um aumento da pressão
sangüínea. Para que o orgasmo vaginal aconteça é necessário que o ponto G
seja estimulado nesse momento.
Para a mulher é importante que essa fase se prolongue, permitindo que o sangue
irrigue adequadamente toda a cavidade pélvica, onde estão os órgãos genitais,
propiciando um orgasmo satisfatório. No homem, os corpos cavernosos e o corpo
esponjoso estão cheios de sangue, fazendo com que a ereção seja total, e os
testículos dobrem de tamanho.
A duração da fase de platô depende da combinação entre a eficácia dos estímulos
utilizados e a necessidade pessoal de cada um para chegar à excitação máxima.
Se os estímulos forem inadequados ou suprimidos, não haverá orgasmo e da fase
de platô passa-se direto - mas vagarosamente - para a fase final de resolução.
Há uma diferença de tempo entre o período de excitação do homem e da mulher.
Para ele são necessários apenas 20 a 30 cm3 de sangue para encher seus órgãos
genitais e manter uma boa ereção. A mulher, entretanto, necessita do triplo,
pelo menos, para garantir uma excitação constante e uma lubrificação adequada.
Esse tempo varia muito e oscila de mulher para mulher, mas geralmente nunca
é menor do que quinze ou vinte minutos.
O desconhecimento desse fato é responsável pelo desprazer que muitas mulheres
sentem no momento da penetração, já que não estão suficientemente lubrificadas.
Isso, é claro, também dificulta o orgasmo. O homem, muitas vezes estando bastante
excitado, supõe que sua parceira também esteja.
No final da fase de platô produzem-se contrações uterinas e retração do clitóris
e da glande. Chega-se, então, ao orgasmo.
Terceira fase: orgasmo
O envolvimento total do corpo na resposta à excitação sexual é experimentado
de forma subjetiva pelas pessoas. Existe grande variedade tanto na intensidade
quanto na duração da experiência orgástica. É uma fase de muito menor duração
que as anteriores, mas de altíssimo nível de prazer. "As sensações produzidas
são de intenso alívio, como libertar-se bruscamente de uma carga de tensão
acumulada durante certo tempo. Algo assim como subir lentamente por uma escada
a um tobogã muito alto e, depois de se sustentar lá em cima por um tempo,
soltar-se numa queda vertiginosa, carregada de tensão, mas alegre, vigorosa,
relaxante", define o psicanalista Juan Carlos Kusnetzoff.
Na mulher, os músculos do aparelho genital contraem-se ritmicamente. Os movimentos
na entrada da vagina, ânus, uretra e útero podem ser espontâneos e ocorrer
ao mesmo tempo. Quando as contrações são muito fortes - podem ocorrer a cada
doze segundos ou a cada um ou dois minutos -, o muco aglutinado no fundo da
vagina pode se liberar junto com a secreção das glândulas de Skene, localizadas
na entrada da uretra e responsáveis pela ejaculação feminina. As contrações
podem ser rítmicas, simultâneas e podem ocorrer separadas. Às vezes a mulher
pode nem perceber os movimentos ondulatórios do baixo ventre, como pode também
contribuir para iniciar voluntariamente as contrações do orgasmo.
O controle dessa musculatura vem diminuindo no decorrer dos tempos. As civilizações
mais antigas tinham maior controle sobre esse tipo de musculatura. Mas a sexóloga
Marilena Vargas ensina: "Basta, porém, que você contraia o abdômen, o ânus
e, em seguida o orifício vaginal, tentando engolir o pênis com a vagina e,
em seguida, expulsá-lo. Repita isso várias vezes. Dessa forma, você pode 'chamar'
o orgasmo e pode aumentá-lo em duração (o orgasmo feminino dura de 90 a 104
segundos). Nessa fase, quanto maior a fricção entre o pênis e a vagina, maior
o nível de excitação e mais facilmente você chega ao orgasmo."
No homem, iniciam-se as contrações do pênis e dos órgãos que conduzem o líquido
ejaculatório até o bulbo uretral. Num segundo momento, ocorre a expulsão desse
líquido devido às contrações dos músculos perineais e bulbocavernosos. Quando
o líquido ejaculatório está sendo expulso, a uretra do pênis se contrai, assim
como o ânus e os músculos do assoalho pélvico.
Segundo Masters e Johnson, o orgasmo masculino pode durar até vinte segundos,
mas existem exercícios musculares para aumentar esse tempo, assim como para
possibilitar que o homem tenha orgasmos múltiplos.
Geralmente o orgasmo masculino ocorre simultâneo à ejaculação, embora possa
existir independente dele.
Quarta fase: resolução
O homem e a mulher, a partir do ponto culminante do orgasmo, caminham para
a fase de resolução do ciclo sexual. A sensação é de plenitude e bem-estar.
A mulher pode entrar nessa fase após um único orgasmo ou após vários consecutivos.
E também pode retornar a uma nova experiência orgásmica a qualquer momento,
desde que submetida a novos estímulos. No homem, geralmente existe um período
refratário que varia de duração. Sua capacidade fisiológica para responder
à nova estimulação após a ejaculação é muito mais vagarosa do que a da mulher.
A não ser que ele aprenda a ter orgasmo sem ejacular e, assim, consiga vários
orgasmos consecutivos.
RESUMO
Mudanças Físicas nos Homens Durante o Ciclo de Resposta Sexual*
A. Fase do Desejo
- Nenhuma mudança física específica
B.
Excitação
- Início da ereção
- O escroto começa a intumescer, as dobras escrotais desaparecem
- Os testículos começam a subir
- Os mamilos podem tornar-se eretos (isso também pode ocorrer apenas na fase
de 'platô')
- Os batimentos cardíacos aceleram-se e a pressão sangüínea sobe
C. Platô
- Aumenta a tensão neuromuscular geral
- Aumenta a rigidez da ereção
- A glande aumenta um pouco
- Os testículos tornam-se maiores e são puxados para mais perto do corpo
- Pode surgir o fluido pré-ejaculatório
- Pode ocorrer o rubor sexual (em cerca de 25 por cento dos homens) - Os batimentos
cardíacos se aceleram e a pressão sangüínea sobe ainda mais
- A respiração pode tornar-se curta e rápida
- Contração voluntária do esfíncter retal usada por alguns homens como uma
técnica de estimulação
- Novo aumento da tensão neuromuscular
- A acuidade visual e auditiva é diminuída
D.
Orgasmo
- Início das fortes e rítmicas contrações involuntárias da próstata, das vesículas
seminais, do reto e do pênis
- A ejaculação ocorre logo depois do início das contrações da próstata
- Os testículos são puxados firmemente contra o corpo
- O rubor sexual, se presente, atinge seu ponto máximo e se espalha
- Os batimentos cardíacos, a pressão sangüínea e o ritmo da respiração chegam
ao ponto máximo
- Perda geral do controle muscular voluntário; pode haver contrações de grupo
de músculos no rosto, nas mãos e nos pés

E. Resolução
- Perda rápida da maior parte da ereção do pênis, seguida por um retorno mais
lento ao tamanho normal
- O escroto relaxa e reaparecem as dobras escrotais
- Ocorre o período refratário, durante o qual não é possível outra ejaculação
(a duração do período
refratário é muito variável, geralmente mais curta em homens mais jovens e
aumentando com a idade)
- Perda da ereção dos mamilos
- Rápido desaparecimento do rubor sexual
- Pode continuar a haver uma tensão neuromuscular irregular, como é mostrado
por contrações involuntárias de grupos de músculos isolados
- Os batimentos cardíacos, o ritmo da respiração e a pressão sangüínea voltam
aos níveis normais (de pré-excitação)
- Comumente há uma sensação geral de relaxamento
- A acuidade visual e auditiva volta aos níveis normais
Mudanças Físicas nas Mulheres Durante o Ciclo de Resposta Sexual
A. Fase do Desejo
- Nenhuma mudança física específica
B. Excitação
- Início da lubrificação vaginal
- Dois terços anteriores da vagina se expandem
- A cor da parede vaginal torna-se mais escura
- Os lábios vaginais externos se espalmam e afastam-se da abertura vaginal
- Os lábios vaginais internos se intumescem
- O clitóris torna-se maior
- O colo uterino e o útero se movem pra cima
- Os mamilos ficam eretos
- Os seios aumentam um pouco de tamanho
- O rubor sexual aparece (tardio e variável)
- Os batimentos cardíacos aceleram-se e a pressão sangüínea sobe
- Aumenta a tensão neuromuscular geral
C.
Platô
- A lubrificação vaginal continua, mas pode aumentar e diminuir
- A plataforma orgásmica surge na terça parte externa da vagina
- O colo uterino e o útero se elevam ainda mais
- Os dois terços interiores da vagina se alongam e se expandem ainda mais
- O clitóris recua para debaixo do prepúcio clitoriano
- Os lábios vaginais ficam mais intumescidos e mudam de cor
- O rubor sexual se intensifica e espalha mais - A respiração pode tornar-se
curta e rápida
- Contração voluntária do esfíncter retal usada por algumas mulheres como
uma técnica de estimulação
- Novo aumento da tensão neuromuscular
- Diminuição da acuidade visual e auditiva
D.
Orgasmo
- Início das fortes e rítmicas contrações involuntárias da plataforma orgásmica
e do útero
- O rubor sexual, se presente, atinge seu ponto máximo e se espalha
- Contrações involuntárias do esfíncter retal
- Os batimentos cardíacos, a pressão sangüínea e o ritmo da respiração chegam
ao ponto máximo
- Perda geral do controle muscular voluntário; pode haver contração de grupos
de músculos no rosto, nas mãos e nos pés

E. Resolução
- O clitóris retoma sua posição normal entre 5 e 10 segundos após o orgasmo
- A plataforma orgásmica desaparece
- Os lábios vaginais voltam à sua espessura, posição e cor normais
- A vagina recupera rapidamente seu tamanho normal; a volta à cor normal pode
demorar entre 10 e 15 minutos
- O útero e o colo uterino descem para as posições de pré-excitação
- A aréola volta rapidamente ao tamanho normal; a ereção dos mamilos desaparece
mais lentamente
- Rápido desaparecimento do rubor sexual
- Pode continuar a haver uma tensão neuromuscular irregular, com mostrado
por contrações involuntárias de grupos de músculos isolados
- Os batimentos cardíacos, o ritmo da respiração e a pressão sangüínea voltam
aos níveis normais
(de
pré-excitação)
- Comumente há uma sensação geral de relaxamento
- A acuidade auditiva volta aos níveis normais
Livros consultados:
- A cama na varanda, Regina Navarro Lins, Editora Rocco, 1997.
- Heterossexualidade, W. Masters, V. Johnson, Kolodny, Editora Bertrand Brasil,
1997, pg 66