Ele viveu a época de ouro da literatura libertária francesa, o que equivale
a dizer a melhor do mundo naquele período.
Wilhelm Apollinaris de Kostrovitsky, que usava o pseudônimo de Guillaume Apollinaire,
nasceu na Itália, filho de uma aventureira polonesa com um alto prelado da
Igreja Católica Apóstólica Romana. É claro que o cardeal jamais admitiu essa
paternidade, e Apollinaire foi criado em Paris, sem pai reconhecido.
Tornou-se um dos maiores poetas franceses ao escrever Zone, uma dolorosa
fantasia romântica que figura até hoje entre os clássicos franceses.
Apollinaire viveu a passagem do século na França, e a coisa fervilhava por
ali. Artistas de todo o mundo rumavam para a "cidade luz" à procura de inspiração
e aventura. Stravinsky apresentava ao mundo sua obra máxima Sacre du Printemps
(A sagração da primavera); Picasso vivia o auge de sua fase cubista, com os
corpos das figuras decompostos como cubos de papelão desmanchados; o grande
poeta Marinetti lançava o Manifesto Surrealista. Todos esses artistas
e movimentos estavam questionando o "olhar sobre o mundo".
Apollinaire e os amigos mudaram-se para o bairro de Montmartre, em Paris.
Criando no bairro boêmio
Montmartre era cosmopolita, área de intelectuais cujos escritórios eram os cafés. O quartel general dos modernistas ficava num deles, chamado
Les deux magots. A vida parisiense fervia em torno. A fotografia já era uma realidade no burburinho das cidades. Belas mulheres posavam para os lambe-lambes em frente ao mercado das flores. Prostitutas ou damas, elas povoavam, nuas, o imaginário de Apollinaire, que as sonhava livres de qualquer preconceito.
Ele era então um poeta respeitado, editor da conceituada revista
Les soirées de Paris (As Tardes de Paris). Mas sua criação esfuziante não se limitava aos versos bem construídos de rima romântica. Nas madrugadas, após viagens de absinto, Apollinaire escrevia outros livros, entre eles uma obra prima do erotismo:
Les onze mille verges (As onze mil varas). É claro que não os podia publicar com seu nome.
O sadomasoquismo sem sentimento de culpa
Os autores modernistas, entre os quais figurava Apollinaire, viviam à sombra do movimento cubista, que tinha sua origem nas artes plásticas. Faltava à literatura esse status de originalidade. Eles foram buscá-lo nos transgressores franceses, aqueles que o "sistema" cultural não havia absorvido até então (e que não assumiu até hoje). Entre os primeiros da fila de espera estavam o Marquês de Sade (cuja apresentação pode ser encontrada neste mesmo link) e Sacher-Masoch.
Inspirando-se neles, Apollinaire escreveu As onze mil varas. Para abrandar a escolha e justificar-se, usou como subtítulo
adomasoquismo sem sentimento de culpaobra, cheia de descrições que fizeram arrepiar aos moralistas de então e de hoje, conta a vida e as aventuras do príncipe romeno Vibescu.
O enredo d'As onze mil varas
Embora personagem ficcional, o príncipe Vibescu tinha inspiração no próprio Apollinaire, que também era descendente, por parte de mãe, do leste da Europa, e que, como seu protagonista, ambicionava viver aventuras sexuais em Paris.
A história do príncipe começa em Bucareste, cidade que é uma das principais entre as que dividem Oriente e Ocidente. Localizada geograficamente na Europa, foi profundamente influenciada pela Ásia, assim como a Turquia, com seus costumes diferenciados e exóticos.
Apollinaire escreve que, ao príncipe Vibescu "bastava pensar numa parisiense para imediatamente ficar de pau duro e ser forçado a masturbar-se, com beatitude." O jovem Apollinaire também deve ter se masturbado com as possibilidades sexuais de Paris na adolescência.
Um príncipe no mundo
Mony Vibescu, hospodar hereditário, parte da Romênia no famoso Expresso Oriente, que já serviu de palco para outros literatos, como Agatha Crisite e Grahan Greene. Mas os acontecimentos dessa viagem são inconfundíveis, conforme podemos notar por esse trecho:
"Na cabine, ficaram os quatro pelados. Mariette foi a primeira. Mony nunca a tinha visto assim, mas reconheceu a floresta de pêlos que sombreavam a boceta polpuda. Mony introduziu-se por trás na boceta de Mariette, que, começando a gozar, agitava o volumoso traseiro fazendo-o bater contra o ventre de Mony. Cornaboeux, criado do príncipe, havia enfiado o seu martelo curto e grosso no ânus dilatado de Mony, que esgoelava: - Porcaria de estrada de ferro! Não conseguimos manter o equilíbrio."
A guerra como provedora
Apollinaire observou a Primeira Guerra Mundial de um ponto de vista privilegiado. Serviu pela França e foi ferido em combate. Perambulou por hospitais militares em toda a zona do conflito e foi certamente aí que colheu elementos para compor a passagem de seu personagem Mony, pelo mesmo evento.
A descrição de uma enfermeira sádica é um dos pontos altos da literatura erótica de transgressão, em todos os tempos. Ei-la:
"Chegou então uma senhora da Cruz Vermelha. Era uma jovem bonita, da nobreza polonesa. Tinha a voz suave como a dos anjos, e ouvindo-a, os feridos voltavam para ela os olhos moribundos, acreditando enxergar a própria Madona.
Mony observava-a, e percebeu logo que seus dedos demoravam mais do que o necessário nos ferimentos.
Trouxeram um ferido horrível de se ver. O rosto estava ensangüentado e o peito dilacerado.
A enfermeira medicou-o com volúpia. Colocara a mão direita na chaga escancarada e parecia desfrutar do contato com a carne palpitante. De repente a vampira ergueu os olhos e defrontou-se, do outro lado da maca, com Mony, que a olhava sorrindo desdenhosamente. Ela enrubesceu, mas ele reassegurou:
- Acalme-se, não tenha medo, compreendo melhor do que qualquer outro o prazer que você pode sentir. Eu próprio tenho as mãos impuras. Goze nesses feridos, mas não recuse meus braços.
Ela baixou os olhos em silêncio. Mony logo colocou-se atrás dela, levantou-lhe as saias e desnudou sua bunda maravilhosa, cujas nádegas eram de tal forma coladas que pareciam ter jurado jamais se separarem.
Ela agora rasgava febrilmente, com sorriso angelical nos lábios, a terrível chaga do moribundo. Curvou-se para que Mony pudesse melhor usufruir o espetáculo de sua bunda.
Ele então introduziu-lhe o dardo entre os lábios sedosos da boceta, por trás, enquanto com a mão esquerda procurava o clitóris sob as saias. A enfermeira gozava silenciosamente, crispando as mãos na ferida do moribundo, que agonizava atrozmente. Expirou no momento em que Mony esporrava. A enfermeira desvencilhou-se imediatamente, e tirando as calças do morto, cujo membro estava duro como ferro, enterrou-o na boceta, gozando sempre em silêncio, com o rosto mais angelical do que nunca."
Vida breve
Apolinnaire morreu jovem, aos 38 anos, durante o surto mundial da gripe espanhola que devastou a humanidade, e chegou inclusive no Brasil. Seus livros libertários e eróticos foram publicados com pseudônimo, mas seu estilo refinado o denunciou. Foi perseguido na França e obrigado a negar seu trabalho. Seus perseguidores perderam-se no tempo. Ele é reconhecidamente um dos maiores autores de todos os tempos.